Artigo: O sonho de ser um policial civil esta acabando | Tribuna Popular

Artigo: O sonho de ser um policial civil esta acabando

Data: 07/12/2017 - 03:12 | Categoria: Local |   Bookmark and Share

Sou daqueles que não acredita em choque de gestão pública que produza uma segurança de qualidade sem policiais motivados e respeitados, para mim, viaturas novas, armamento de qualidade, tablet, computador, aparelhos de escuta e de filmagem, rastreadores, tecnologia de ponta, celular, os cambaus sem policiais preparados para lidar com tudo isso e contra a bandidagem não adiantará em nada. A maioria (poderia dizer todos, mas vá lá) dos especialistas e autoridades de Segurança que leio juraria o mesmo.

É claro que não é só o salário que desvaloriza: A polícia civil possui a vocação e a tarefa de investigar. Outras instituições agora podem investigar. Contudo, é da Polícia Civil que estamos falando.

Existem inúmeras razões que podem motivar uma pessoa a querer se tornar um policial civil: primeiro, por desejar exercer uma profissão que é ao mesmo tempo nobre e importante, segundo, um trabalho que proporcione ação, que não seja rotineiro, sem medos de correr riscos. Quando aprovado no concurso acha que está entrando para uma profissão assim, crê que será um investigador.

Pode-se dizer, pelo menos sob vários pontos de vista, que a Polícia Civil já não é mais um órgão policial de verdade.

Você vai a uma delegacia e o que menos vai encontrar são policiais correndo atrás de criminosos.

Os poucos policiais civis ocupam a maior parte do tempo atendendo ao público para registrar suas ocorrências, na grande maioria das vezes tratando-se de simples perda de documentos ou de objetos que não é motivo para gerar uma investigação, redigindo e protocolando documentos e deslocando-se para realizar intimações ou encaminhar inquéritos e outros expedientes a outras unidades.

 Os trabalhos ficam por conta dos escrivães ou estagiários que irão apenas ouvir os relatos e depoimentos, reunir as informações e encaminhar ao poder judiciário. Pois é, estão acabando as cadeias nas delegacias e os policiais civis deixaram de tomar conta de presos para tornarem-se "Office boys" da justiça. Não há investigação. Investigação mesmo, havendo levantamento, coleta de evidências, campanas nos locais de ocorrências de crime, cruzamento de informações, filmagem ou fotografia, escuta, etc.: nada.

Atualmente, quase que a totalidade das prisões realizadas, principalmente durante os plantões, é feita pela PM ou GM através de ocorrências ou até mesmo por meio de investigações realizadas pela inteligência destas (P2). Difícil ver uma prisão feita por uma investigação iniciada e concluída pela própria Polícia Civil.

Algumas vezes há sim certa investigação que gera uma operação policial e que acaba resultando na prisão de criminosos. Mas pode apostar que houve um interesse particular ou pressão política ou social para isso. Outras vezes há uma pequena operação, (desfilar com viaturas pela cidade á noite com giroflex ligado) para fazer propaganda, mostrar a comunidade que a polícia "está trabalhando" e que geralmente não resulta em prisão nenhuma, afinal não houve levantamento, não houve investigação. Foi só pra inglês ver.

Acabou aquele tira bom de serviço que só vivia nas ruas ou dentro da viatura. Que estava atento a tudo que ocorresse nas ruas. Que tendo vários informantes, sabia quase tudo. Aquele que virava as noites e ficavam altas horas da madrugada de campana para saber o que um suspeito estava aprontando ou iria aprontar. Que estava pronto a qualquer hora do dia ou da noite pro que der e vier, para uma operação ou para fazer uma prisão. Aquele policial 24 horas que não tinha medo de "bronca", que não tinha medo de nada. Que, orgulhava do distintivo.

Hoje o tira bom é aquele servidor, preferencialmente submisso, que entende de informática ou o policial de escritório, nos moldes do funcionário público: cumpridor de horário, que chega à repartição exatamente às 09:00h senta-se em frente à mesa ou ao computador; permanece ali o dia inteiro, pausando de vez em quando para tomar um café ou bater um papo; pára ao meio-dia em ponto para o almoço; retorna pontualmente as 14h; senta-se de novo a mesa ou ao computador, pausando novamente para os coffee breaks; até dar 18:00h para ir embora o mais rápido possível do entedioso trabalho.

Trabalho fora do expediente, nem pensar, a não ser visando algum por fora! Este passou a ser o servidor ideal para a polícia. E se um destes sabe lá, que possui um espírito policial, se deparar com uma situação e resolver fazer uma prisão. Ao levar o suspeito para a delegacia, mesmo não tendo agido com abuso algum, mesmo tendo executado o procedimento de forma legal, ainda pode não contar com apoio e ouvir um monte de broncas de seu chefe por "estar dando trabalho".

Não se postula aqui o retorno daquela polícia antiga e obsoleta que só apurava tudo através da tortura, no pau de arara. Isso não é investigação. Alguns ainda dizem que assim se apurava muitos crimes e que só desse jeito é possível apurá-los. É verdade, que em certas situações extremas, repito extremas, a lei é incompetente e ineficaz. E para solucionar isso é necessário atuar fora da lei. E mesmo assim, aquele que o fizer estará correndo o risco de ser responsabilizado por seus atos. Agora a prática cotidiana de tortura ou da arbitrariedade policial é sim totalmente condenável.

Sonha-se que Policia Civil tenha tanta moral quanto a Polícia Federal. Mas para que isso ocorra sera necessário que a Polícia Civil abandone tudo que a ela não diz respeito para então somente fazer aquilo que é de sua competência: investigação.

Mas infelizmente caminha para um sonho perdido. Por isso, hoje estão todos se aposentando e todos que passa no concurso e entra pra Polícia Civil, se decepciona, permanece pouco tempo e luta por qualquer outra coisa melhor. Não é mais uma profissão promissora; aos espertos investigadores e escrivães só resta estudar e cair fora o mais rápido possível.

Israel Brito é Professor da SEED.

Atenção

A reprodução das fotos do Portal de Notícias Tribuna Popular com endereço digital jtribunapopular.com.br está expressamente proibida.

As fotos são protegidos pela legislação brasileira, em especial pela Lei de Direitos Autorais (Lei Federal 9.610/98) e é um direito de imagem garantida por lei.

A Tribuna Popular retém os direitos autorais do conjunto de textos e fotos publicados no site conforme a lei 9.610 de 19/02/1998.

Para a reprodução do conteúdo fora das condições especificadas entrar em contato com o seguinte e-mail jtribunapopular@bol.com.br